sábado, 10 de julho de 2010

LIVRO - CADERNO DE BORBOLETAS

1. Bruno Ribeiro




Sempre me mandaram voltar para o mundo real. Mas eu não via motivo pra isso, e eu não ia mudar minha opinião até que algo muito grave acontecesse.

Eu admirava Bruno Ribeiro. Âncora do melhor jornal do mundo. E eu tinha o sonho de conhecê-lo um dia. Por isso eu sabia o que ia pedir de presente de debutante: conhecer Bruno. Eu queria mais do que uma simples festa, ou uma viajem boba e até dinheiro, a quantidade que eu quisesse, eu queria passar a manhã junto com ele, só para beijá-lo com todo o meu amor. Eu não era sonhadora, pelo contrário. Mas todas as garotas, quando estão em sã consciência, querem conhecer seu ídolo. Minhas amigas diziam que eu sonhava demais, mas fora isso, eu era totalmente pé-no-chão.

Minha vida estava ficando cada dia mais animada, faltavam duas semanas pro meu aniversário, minha mãe insistiu em fazer uma festa. Eu aceitei, mas disse que não queria outra coisa a não ser Bruno Ribeiro. E eu ganharia. Já estava agendado na agenda preta e azul que ele tinha. Ganharia também a festa, uma viajem – que eu ainda não tinha decidido pra onde -, e uma quantia significativa para gastar enquanto estivesse viajando. Mas nada disso importava.

Eu estava feliz, hoje era a última prova do meu vestido. Ele era azul, a cor que eu sempre amei, grande e parecia com o de uma princesa. Tinha camadas e brilhantes. Por causa disso, eu teria que sair mais cedo da escola hoje. E seria grata a minha mãe pro resto da minha vida por me deixar perder a aula de matemática. A festa seria sábado, e eu iria visitar Bruno na segunda-feira, - que tinham duas aulas de matemática – e voltaria no mesmo dia. Iria viajar em junho. Não era o que eu queria, mas eu estava aceitando tudo desde o dia em que descobri que faltavam três semanas pro meu aniversário.

É, minha vida estava indo as mil maravilhas. E eu estava arrumando o material pra ir embora. Estava esperando só a secretária chamar.

- Helena? – Carlos chamou.

- Sim Carlos?

- Fez o exercício de matemática?

- Fiz sim Carlos. E você podia entregar pra Lílian pra mim.

- Claro. Era isso que eu ia te falar.

- Obrigada.

Minha sala era dividida em duplas, e Carlos era a minha. Isabella, minha melhor amiga, sentava lá na frente com o meu melhor amigo Fábio. Eles tinham sorte, mas eu não me queixava. Luana, uma colega de classe, sentava com Lucas, o menino mais porco do mundo. Então eu pensava que tinha sorte. Carlos era um garoto muito humilde e agradável. E eu também não era a pessoa mais horrível do mundo. Valéria, a menina mais inteligente da história, sentava com Gabriel, o menino mais gato da escola. Eles estavam namorando, e tentavam esconder isso de todo mundo se agarrando na frente do portão do colégio. Valéria não era feia para Gabriel não se interessar por ela. Tinha cabelos cacheados e ruivos, olhos azuis como o céu, e pele branca como a neve e para completar um corpo escultural. E Gabriel? Tinha a pele morena escura, olhos castanhos dourados e cabelos pretos e arrepiados.

Eu, para menos, era branquela, magrela, baixinha, com cabelos castanhos escuros. E uma comissão de frente maior do que o normal para uma garota de quatorze anos, quase quinze.

- Helena Pierre, descer com o material. Helena Pierre, primeiro ano B, favor descer com o material.

- Vai lá Helena! – gritou o imbecil do Daniel, lá da frente. – Boa corrida.

- Helena espere! – gritou Isabella – Me conta depois como que foi. Como é o vestido, não esquece.

- Baixinha, não esquece o óculos. – Eduardo, aquele idiota, chegou do corredor para intrometer na minha vida, sempre me chamava de baixinha. Eu odiava isso. E odiava ele. Ele é uma pessoa que eu nunca vou esquecer na minha vida, foi com ele que eu dei o meu primeiro beijo, e mais nojento do mundo. Nós não gostávamos um do outro, mas já gostamos, na quarta série, mas ultimamente tínhamos fechado a cara um pro outro.

Desci a escadaria enorme do colégio. E lá estava minha mãe, com um sorriso imenso. Logo entrei no carro pra não ter dúvidas de que iria perder a aula de matemática.

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