3. O GAROTO MAIS ROMÂNTICO DO MUNDO.
- Lena? Acorda. Fiz café pra nós dois. – disse uma voz, agora suportável, na minha cabeça.
- Oi! Bom dia. – minha cara devia estar totalmente inchada.
- Fiz café da manhã. Vamos descer pra comer? – eu precisava conversar com ele, eu odiava garotos que grudavam e românticos demais. Aquilo me deixava sem jeito.
- Vamos descer? Vá se arrumar.
Fui ensaiar como eu ia falar com ele tomando banho e me aprontando para descer e tomar café, que por sinal não me deixava com vontade nenhuma de comer mais alguma coisa pro resto do dia.
- Olha Eduardo, eu preciso falar com você, sério.
- Mas... A gente só tem um dia.
- Não é nada disso. É porque, eu odeio meninos românticos demais, me enjoa sabe? É meio chato.
- Ah! Até que enfim você falou isso. Não tava mais agüentando fingir de garoto mais romântico do mundo. Viu como fomos feitos um pro outro? Meu negócio é pegar, só pegar. Não gosto de grudar muito também não.
- Então porque você estava fazendo isso? Você devia saber que eu terminei com Danilo por causa disso.
- É? Eu pensava que era mentira. Então está tudo bem. Melhor assim, aí eu também não tenho que fingir nada.
- Olha Eduardo, seja quem você é de verdade. Senão, não cola. Se é que você me entende.
– Rá, rá, rá. Eu entendo. Rá, rá, rá. – pronto. Estava tudo mais belo do que tinha começado.
Depois do café da manhã, nós disputamos vinte partidas de luta no videogame, e depois ele foi embora. Eu sentia que a pior coisa que eu tinha feito era ter aceitado esse pedido dele, porque de algum jeito, eu sentia que algo não ia dar certo, de jeito nenhum, ou algo de muito grave iria acontecer. Tentava tirar esse pensamento da minha cabeça, mas não conseguia.
Fui arrumar a cozinha, ainda pensando naquilo, quando senti um embrulho no estomago. Fui correndo pro banheiro e vomitei. No decorrer do dia, aconteceu isso mais umas três vezes. Poderia ter sido algo que eu comi na manhã daquele dia. Esperei meus pais chegarem, e disse que eu estava passando mal. A minha mãe fez um chá e disse pra eu ficar debaixo da coberta que iria passar.
Segunda-feira tinha chegado, e eu não estava nem um pouco ansiosa para ir pra aula. Na verdade nem estava passando tão bem assim, estava enjoada, com a cabeça doendo. Resolvi que estava gripando e não levantei. Ficaria debaixo do lençol o dia inteiro, e não me importaria com a matéria nova que a professora de matemática iria passar naquele dia. Depois eu pegava com Carlos ou com Isabella. Não me importava com nada disso agora.
TERÇA FEIRA.
QUARTA FEIRA.
QUINTA FEIRA.
SEXTA FEIRA.
SÁBADO.
DOMINGO.
SEGUNDA FEIRA.
Meu mal-estar tinha passado, definitivamente. Eu estava bem melhor. E tinha acordado com disposição, então iria pra aula. Coloquei uniforme, soltei o cabelo, feio, penteei, coloquei os óculos, escovei os dentes, e eu estava pronta. A campainha tocou.
- Helena, é pra você. Desce, você vai se atrasar.
- Já vou. Manda entrar. Estou descendo.
Terminei de arrumar o horário, desci e para minha surpresa quem estava na porta era Eduardo.
Eu já tinha dito pra ele que não queria “grude” demais da parte dele, porque realmente era um saco. Enchia-me a paciência e eu, sinceramente, não gostava. Mas eu não iria deixar Eduardo esperando na porta da minha casa, eu iria com ele, só hoje.
- Oi. – grunhi.
- Oi. Ontem sua mãe insistiu para que eu viesse te pegar. – ele disse me dando um beijo na testa.
- Sabia que isso não era coisa sua. Eu já tinha te falado. – Fomos conversando no caminho da escola.
- É. Ela ligou lá pra casa ontem a noite e disse pra mim te fazer uma surpresa hoje aqui na porta da sua casa, eu disse pra ela que você não ia gostar, mas como ela insistiu...
- Não tem problema, mas só não aceita de novo. Deixa-a falar sozinha ao telefone.
- Tudo bem, então.
Depois disso, andamos calados por muito tempo, eu não tinha o quê conversar com Eduardo. Garotos gostavam de falar sobre futebol, e eu não gostava de assistir, então não tinha como eu falar. Até que veio uma dúvida grande na minha cabeça. “ E Clarissa? Que era apaixonada com Eduardo, e era capaz de fazer qualquer coisa para conseguir conquistar ele? Como ela iria ficar?”
- E... Eduardo, e a Clarissa? – perguntei timidamente para ele, porque eu sabia que esse era um assunto que ele não gostava de falar.
- Clarissa, Helena, é um caso acabado. O que aconteceu entre eu e ela foi uma vez, e nunca mais vai acontecer. Eu te prometo.
- Não Eduardo, você não tem que me prometer. Só quero saber qual vai ser a sua reação ao ver a reação dela.
- Nenhuma. Não vai ter nenhuma reação. Uma garota do nono ano acha que ainda vai ter uma chance comigo? Jamais.
- Não estou falando disso Eduardo, estou falando dela querer brigar comigo e com você. Você sabe como ela é.
- Eu sei, e é por isso que eu não estou preocupado. Se ela vier falar alguma coisa com você ou comigo, e não vou brigar e nem render assunto. Entende agora?
- Eu acho que entendo. Vou esperar ela vim falar alguma coisa.
Eu não estava reclamando à toa. Clarissa era a menina que todo menino queria ter. Loira, olhos azuis, e 1,70 de altura. Eu não estava com ciúme, só estava receando pela saúde de todos nós.
Chegamos á escola. Eu já queria logo sair de cena, subir as escadarias e desaparecer lá pra cima. Mas era tarde demais. Quando pisamos dentro da escola, eu vi Clarissa vindo em nossa direção. Ela não estava com cara de raiva ou talvez ódio, ela estava com um sorriso gigante em seu rosto.
- Dudu? – disse ela quando chegou bem perto da gente. – Meu bem, você vai à minha festa né? – nessa ela passou a mão no peitoral do Eduardo todinho e ele estava com uma cara de mal-humorado pra ela. – Em? Você vai não é? – Ela tentou abraçar ele. E eu não sei o quê que me deu, mas naquela hora eu só queria matar Clarissa Husburg. Eduardo olhou para mim e sorriu. – Ah! Oi Helena. Você vai Eduardo? Já falei com a Janaína e com a Helen que você vai. Agora você tem que ir. – como se fosse obrigação de Eduardo ir a qualquer festa que aparecesse pela frente.
- Eduardo, eu vou subir. Vou deixar vocês conversarem. Depois a gente se encontra. – quando eu estava saindo, Eduardo me pegou pelo braço, me virou e me deu um beijo. Foi tão profundo que depois eu fiquei tonta. – Opa! Deixa-me ir. – mas ele não deixou. Segurou-me pela cintura até Clarissa terminar de falar.
- Como assim Eduardo? Você ta namorando essa aí? Eu não acredito meu bem. Você era meu, esqueceu?
- Eu nunca fui seu, Clarissa. Eu fiquei com você uma vez na minha vida. E você acha que sou seu? E olha que foi há dois anos atrás hein?
- Ah, então quer dizer que você não vai à minha festa? Logo a minha festa?
- Vou. Se a Helena puder ir também.
- Não Eduardo. – intrometi – Não arruma confusão. Eu sei como é organizar uma festa e não tem convites disponíveis. Vai sozinho.
Clarissa fez uma cara de espanto pra mim e depois deu um sorriso maligno.
- É a Helena tem razão. Não tem convites sobrando. Você tem que ir sozinho.
- Então eu não vou. Só vou se for com ela, não entendeu ainda?
- Eu vou dar um jeito então. – Janaína e Helen se aproximaram da gente.
- Então Edu, você vai? – disse Janaína.
- Ele vai sim. – disse Clarissa, antes que Eduardo pode responder.
- Só se for com a Helena, eu já disse Clarissa. – Eduardo estava ficando irritado e cada vez que eu queria ir embora ele apertava a minha cintura me dando um sinal de confiança.
- Eu não disse que ele ia sozinho, disse? – falou Clarissa saindo com as meninas.
- Essa menina é doida mesmo né? – disse Eduardo pegando na minha mão e subindo a escadaria.
- É, pode ser. Mas eu não vou com você na festa da Clarissa. – Eu com certeza não iria à festa dela. Ele nem precisava implorar.
- Porque não, Helena? Seria a festa que todo mundo quereria ir e você não vai?
- Não, eu não vou Eduardo. E eu preciso entrar na sala de aula. Depois a gente conversa.
- Tudo bem. Eu te encontro aqui na hora do intervalo. – ele me deu um beijo e continuou a subir de onde eu tinha parado.
As coisas na sala não iriam cair nada bem. Não tava preparada pra ouvir tanta gente falando o meu nome ao mesmo tempo. Não sabia se hoje eu iria mesmo pra aula. Eu poderia ir pra casa, fingir que estava passando mal. Quando me virei Isabella estava atrás de mim.
- Ah! – eu disse ao levar um susto – É você Isabella. Que susto!
- Você não vem? Vamos, o sinal vai tocar daqui a pouco. – eu fiquei parada, queria parecer estar passando mal, mas eu acho que não estava parecendo muito. Queria ver uma coisa muito esquisita e ficar pálida. – Helena? Vem.
- Não pareço estar passando mal né? – perguntei para Isabella, sentando na escada.
- Não, não parece. O que esta acontecendo?
- Eu não quero participar da aula hoje. Quero estar parecendo passar mal.
- Por quê? É por causa do Eduardo?
- É. Eu não estou preparada pra ouvir todas as pessoas falando de mim ao mesmo tempo. Isabella me ajuda.
- Ah! Para de bobeira. Não tem nada disso não. É só você não dar bola pro que as pessoas vão falar. Não liga pra isso não.
- Eu não sei. – e aí o sinal tocou. Eu não podia mais fazer nada – Vamos pra aula. Agora não dá mais.
A gente foi pra aula. Na hora que eu entrei na sala, todo mundo olhou pra mim. Eu queria que acontecesse aquilo. Depois de ser encarada por vinte e uma pessoas, eu sentei na minha cadeira e abaixei a cabeça. À medida que as aulas foram passando eu fui levantando a cabeça e prestando atenção na aula. A hora do intervalo estava chegando. Eu queria descer mais cedo, para não pegar a fila na hora do lanche, então pedi licença para a Sra. Lourdes, e desci. Mas parece que vinte pessoas tiveram a mesma idéia que eu, inclusive Clarissa e... - eu não conseguia enxergar quem estava beijando Clarissa- Eduardo? Não poderia ser. Porque Eduardo estaria beijando Clarissa? Ele não tinha dado o fora nela mais cedo? Eu não ia fazer escândalo ou qualquer coisa parecida, mas senti uma lágrima descendo pela maçã – do lado direito – do meu rosto. Eu estava decepcionada com o que tinha visto. Logo passei a mão para enxugar o balde de água que estava caindo dos meus olhos. Queria passar pelos dois sem eles me notarem, conversaria com Eduardo depois. O que aquilo tudo que ele falou pra mim significava agora? “Gosto de você, sempre gostei, não há nada mais pra eu fazer a não ser pedir você em namoro, eu não vou ficar escondendo os meus desejos de você, eu acho mesmo que a gente poderia dar certo.” Certo? Onde eu estava com a cabeça quando aceitei aquela conversa furada? Ele não gostava de mim, nunca gostou. E eu ainda ficava me fazendo se tonta. Tentando gostar dele. Logo Eduardo Werneck? O cara que QUASE todas desejavam, iria me querer? A menina que NENHUM gostava? Ah!
E o pior de tudo: Eu achava que estava gostando dele.
Eles pararam de se beijar, quando Eduardo olhou pra mim, que estava ainda no pé da escada, e empurrou Clarissa. Eu estava completamente imóvel. Não conseguia ter nenhuma reação e nem mexer nenhum músculo. Eduardo foi se aproximando de mim lentamente. E eu queria sair, mas não conseguia. Alguma coisa me prendia ali no pé da escada para saber como Eduardo ia se explicada.
- Lena, não foi minha culpa. Ela me agarrou. – disse ele pegando no meu rosto.
- Mas você estava a beijando. – eu disse tirando sua mão com cuidado. – Olha, tudo bem se você não quer sair comigo, eu nem esperava. Você sabe que eu nem gostava de você. Por que você fez isso comigo?
- Eu não fiz nada com você Helena, eu juro. Eu jamais quis te magoar. A Clarissa me pegou de surpresa quando eu estava descendo. – ele se ajoelhou aos meus pés – Você acha mesmo que eu estava “jogando” com você?
- Eu acho. E pode se levantar, eu não sou nada sua pra você ficar pedindo desculpas. – eu disse saindo dali em direção à secretaria.
- Você quer dizer que ACABOU? Simplesmente acabou? – as lágrimas também desciam em seu rosto, mas eu não podia continuar aceitando o nosso namoro. Eu nem sabia se aquilo que ele estava dizendo era mesmo verdade.
- Não. Só estou dizendo para darmos um tempo. Agora eu vou pra casa. EU te ligo.
Fui até a secretaria, pedi pra ir embora, eles me deixaram. Fui andando até em casa já que não era muito longe. Minha mãe estava dando toques desesperados em meu celular, alguma coisa ela queria me falar. Não estava atendendo porque já estava na rua de casa. Quando cheguei, meu pai estava com o carro do lado de fora, e o portão estava aberto. Imaginei que algo grave estivesse acontecendo. Deixei minha mochila no sofá da sala de estar – que era o único móvel que tinha no andar de baixo -, e corri lá pra cima para ver o que estava acontecendo, pois eu estava escutando barulhos de caixas e móveis arrastando. Cheguei ao meu quarto e me deparei com ele vazio. Totalmente vazio, nem as minhas poltronas estavam lá. Segui e fui pro quarto dos meus pais, lá estava tudo vazio também. Então o barulho só poderia estar vindo do escritório. Fui até lá. E estava quase vazio, só tinha uma mesa, que meu pai e minha mãe estavam fazendo careta para tentar desmonta-la. Eu fiquei em choque parada, olhando, enquanto eles não viam que eu estava presente no mesmo cômodo esperando eles me explicarem o que estaria acontecendo. Minha mãe fez tanto esforço que desistiu. Sentou-se na mesa, e só depois viu que eu estava lá.
- Oi filha! – disse ela com uma voz muito cansada – Estávamos tentando desmontar a mesa, mas acho que vou deixar ela aqui.
- Desmontar a mesa? Pra quê?
- Nós vamos nos mudar. Para Contagem. Seu pai recebeu uma proposta de emprego muito boa, em uma indústria que fica num lugar chamado CINCO.
Mas não vamos morara lá perto. A casa já está comprada. Vamos hoje. Está pronta? Sua matrícula na outra escola já está feita.
- Mãe, como você faz isso sem nem me avisar? Você é doida? Há quanto tempo isso estava planejado?
- Há dois dias. Deixamos para te fazer uma surpresa. Na verdade, queríamos que você chegasse aqui e já entrasse no carro.
- Não acredito. E a casa? Vamos ter que mobiliar ela hoje todinha?
- Não. Vamos ter que mobiliar o escritório todinho. Hoje de manhã, eles já tinham levado parte da cozinha. Depois foram levando e montando, aos poucos, e quando chegarmos lá, já vai estar quase tudo mobiliado.
- Quando vamos? – perguntei assustada depois de tanta coisa que eu fiquei sabendo de uma vez só.
- Agora. Não vamos levar mais a mesa e nem o sofá que está lá embaixo. Vamos? Seu quarto. De que cor você quer? Podemos pintar hoje. – disse ela, me abraçando pelos ombros e seguindo na direção da porta.
- Quero azul. Sem você se intrometer como fez da última vez.
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