sexta-feira, 16 de julho de 2010

LIVRO - CADERNO DE BORBOLETAS

8. APREENSIVA.

Mais um mês havia se passado. O convite para Isabella já havia sido feito. E ela, como ótima amiga, havia aceitado. Ela não foi pra minha escola, mesmo, pois ficaria muito longe pra ela.

Paloma resolveu assumir que estava ficando com o Caio. Rodrigo partiu pra outra, Kelly. Eduardo e eu estávamos sempre na mesma. E minha barriga pra variar, estava cada vez maior, e já não estava mais dando pra esconder. Agora, todos da escola sabiam e como os assuntos corriam muito rápido, alguns pais já haviam falado sobre isso na direção da escola. Por isso, resolveram me chamar na administração hoje, para “conversar” comigo sobre o assunto.

- Sim? – disse eu à diretora.

- Bom, Helena, quero conversar com você sobre a sua gravidez. – disse a senhora Carla.

- Tudo bem, pode falar. – eu disse até com medo do que viria a seguir.

- Tenho a tristeza de te informar que, bom, não podemos mais ter você aqui na escola. – ela disse, olhou pra baixo e pegou um formulário de debaixo da sua mesa.

- Como assim? – eu disse confusa.

- Bom, muitos pais vieram na diretoria e reclamaram de ter uma aluna grávida aqui no colégio. Que não é um bom exemplo. E eles conseguiram fazer um abaixo-assinado que contém 235 assinaturas para que você seja convidada a se retirar o colégio. Eu sinto muito. Sinto muito, mesmo. Você é uma ótima aluna, mas vou ter que pedir que leve pra casa esse formulário e traga amanhã assinado para que possamos retirar o seu nome da lista de alunos do primeiro ano. – disse ela se levantando e seguindo na minha direção – Me desculpe mesmo. Não queria ter de fazer isso.

- Tudo bem. – TUDO BEM NADA! Eu não acredito nisso. Peguei o formulário da mão da diretora e saí da sala dela fingindo que estava tudo bem.

Peguei minhas coisas na sala e fui embora.

Cheguei em casa, destroçada, e sentei no sofá. Coloquei a mão no rosto e não agüentei, chorei pra caramba.

Como eles podiam fazer isso comigo? Logo eu? Que tiro as melhores notas da turma, aquela turma de gente burra. Porque eu? Será que eu tinha feito algo errado? Ah é! Tinha. Engravidado.

No momento o que eu queria era tirar da minha barriga as coisas que tinham dentro dela. Para poder voltar pra escola. Minha mãe não estava em casa, então subi pro meu quarto e deitei na cama.

Dormi.

- Helena, acorda. – minha mãe me balançava com uma cara de preocupação. – O que é isso? – ela apontava para o formulário.

- Ah. A escola me expulsou porque eu estou grávida. – eu disse sentando na cama.

- Expulsou? Grávida? Ela expulsou por causa da gravidez? – ela estava olhando confusa pra mim, enquanto eu esfregava os olhos e dava um jeito na coluna dolorida.

- É mãe. Agora por favor, não me faça voltar mais lá. – eu disse e levantei. Seguindo até o banheiro. Lavei meu rosto e depois escovei os dentes. Já era a manhã do outro dia. E eu não esperava ter de ir à escola. Ou ter de me matricular em qualquer outro lugar. Pelo menos por enquanto.

Desci e tomei meu café. Meu pai estava na mesa junto comigo. E me olhava de vez em quando por cima do jornal. Ele queria perguntar alguma coisa, mas preferiu esperar minha mãe se juntar a nós na mesa do café.

- O que era aquilo Milena? – disse meu pai abaixando o jornal e olhando pra mim.

- Era um formulário de expulsão. – ela olhou para o meu pai e depois pra mim. - A Helena foi expulsa da escola.

- Por quê? – meu pai levantou o tom de voz e levantou da cadeira também, mas para pegar o queijo que estava na bancada da cozinha.

- Porque ela está grávida, querido. – disse ela e depois se levantou da mesa. Indo em direção à cozinha. – Eu liguei para a escola e eles me disseram que alguns pais conseguiram 235 assinaturas ao todo, por pais de vários alunos, pedindo que eles convidassem a Helena a sair da escola. Absurdo, não é? A voz da minha mãe estava baixa demais e tranqüila demais. Alguma coisa ela iria fazer. Eu tinha certeza.

Mas agora me futuro estava em minhas mãos, pelo menos até os bebês nascerem. Eu poderia decidir se eu voltaria ou não pra escola. Meus pais podiam pagar um professor particular para eu poder terminar o primeiro ano.

E depois eu entrava na escola em março, daí eu não perderia tanto assim o contato com a escola.

- Agora o problema, é que mesmo depois de ter os bebês, eles não podem mais aceita-la na escola. – minha mãe voltou pra mesa.

- Isso não importa. – eu disse – Agora, o que eu quero é só um professor particular e esperar.

Ninguém pode fazer mais nada, mãe.

- É claro que pode. Vou levar a escola na justiça. – eu sabia que alguma coisa minha mãe ia fazer.

- Não. Você não vai. Porque eu não quero mais estudar lá. Depois de ser expulsa, você teria coragem de entrar na mesma escola?

- Eu teria. – disse meu pai. – E com o ar de vencedor.

- Mas eu não tenho. Portanto conversa acaba aqui. E agora vocês procuram um professor particular pra mim. – eu disse me levantando da mesa.

- Ei, Helena, você acha que só porque está grávida pode mandar na sua vida? – disse meu pai se levantando da cadeira, agora nervoso.

- Não. Eu não acho. E a questão nem é essa. Por que eu cuido melhor da minha vida que vocês. A questão é a seguinte: ou vocês contratam um professor particular, ou eu não vou ficar em escola nenhuma.

- A gente pode te obrigar a ir. – disse minha mãe colocando manteiga na mesa.

- Mas não podem me obrigar a tirar notas boas. – eu disse e saí de casa.

Tinha dinheiro no bolso. Podia pegar um ônibus ou tomar um sorvete, mas preferi caminhar. Andei por todo o bairro até voltar pra minha casa.

Andei para espairecer. Precisava de ar. Muito ar. Para poder pensar nas coisas direito. Pensar em como ia seguir depois que tivesse os meninos. Minha faculdade e meu segundo grau foram por água abaixo. E agora, eu precisava pensar em como eu faria para cuidar dos bebês se eu não voltasse com o Eduardo.

Nenhum romance dura para sempre, principalmente quando ele começa aos 15 anos. Não existe conto de fadas e disso eu tenho certeza. Aliás, quem não tem? E eu e o Eduardo sabíamos bem disso. Só não sabíamos se esse era o nosso caso, se podíamos desfrutar disso com tanta felicidade.

Eu estava apreensiva com a chegada dos bebês, e o que mais me deixava preocupada, era o parto. Minha mãe e eu queríamos que fosse parto normal, mas a dor deve ser insuportável.

UM MÊS ...

DOIS MESES...

TRÊS MESES...

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