4. CIDADE NOVA, VIDA NOVA... OU NÃO!
Minha mãe estava muito feliz com o fato da mudança pra Contagem, afinal, foi lá que ela nasceu então é natural que ela queira voltar. Mas se a minha felicidade importasse, mesmo, eu não iria pra lugar nenhum.
Eu teria que me adaptar a uma vida nova. A uma escola nova, e o mais difícil, aos amigos novos. Meu lema agora era: “ Cidade nova, vida nova”... Ou não! – que era o que eu queria realmente -.
A viagem não foi longa, pois o caminho até Contagem não é grande. E o bairro que iríamos morar ficava perto do centro – de Contagem -.
Como eu iria resolver minha situação com Eduardo? Eu estava disposta sim a perdoar ele, mas de uma forma ou de outra, não seria a mesma coisa. E se a gente continuasse namorando, como a gente iria se ver? E se não passasse nenhum ônibus pra Contagem, onde a gente morava antes? Eu não gostava de ficar pensando em perguntas que poderiam se tornar reais a partir dali. O que eu faria para encontrar a pessoa que mais me importava no momento? E se eu gostasse de outro menino? E se outro menino gostasse de mim?
As perguntas não queriam acabar, e à medida que eu ia esquecendo umas, outras novas surgiam para me atormentar. Possibilidades que antes eram impossíveis, já tinham se tornado realidade, agora para mim, o que mais importava era Eduardo, mesmo sabendo de que aquele sonho poderia deixar de existir em uma fração de segundos.
O carro diminuía a velocidade a cada minuto, era um sinal que a casa estava ficando mais perto, eu não estava ansiosa, estava curiosa para ver porque meus pais me tiraram de lá. O carro tinha parado em frente a uma casa verde com grades e uma garagem espaçosa – pra dois carros. Uma porta de madeira escura e janelas, também escuras, realçavam a parte frontal da casa.
- Vem. Vamos entrar. – disse minha mãe abrindo o portão menor – Você vai gostar do que vai ver lá dentro.
Ao entrar na casa, já toda mobiliada, eu fiquei encantada; A sala era verde clara com móveis modernos e rústicos ao mesmo tempo. Subi as escadas na esperança do meu quarto ser o maior. As portas foram passando e eu fui olhando dentro de cada quarto. O meu era o último. Com suíte. Azul claro. Uma cama encostada na parede, uma penteadeira e uma escrivaninha na parede da porta. Uma outra porta, e minhas poltronas estavam lá de novo. Havia muitas roupas e sapatos, organizados delicadamente em ordem de cores – mesmo não havendo uma variação muito grande de cores no meu guarda-roupa ( preto, amarelo, azul e roxo). Uma outra porta e o banheiro com a bancada da pia de granito e uma banheira no canto. Era incrível, mesmo que eu não quisesse tudo aquilo para ficar longe de Eduardo.
Desci as escadas novamente, eu queria agradecer minha mãe por tudo aquilo, mas antes disso meu celular tocou.
- Alô? – eu disse meio frustrada por não poder agradecer.
- Helena! – uma voz de alívio soou do outro lado da linha, uma voz que eu conhecia... Eduardo!
- Eduardo. Eu disse que iria te ligar. – estava pronta para conversar muito com ele, então me sentei na escada.
- Não consegui falar na sua casa. Onde você está? O que aconteceu?
- Eu me mudei. – ouve um suspiro - Não é culpa sua. Eu cheguei a casa e mudei. Para Contagem.
- Contagem? Como vamos fazer para nos vermos? – sua voz estava desesperada como a minha ficou quando fiquei sabendo.
- Não sei. Talvez você venha pra cá. De vez
- Isso quer dizer que não está tudo terminado? – agora sua voz era de esperança.
- Não. Hora nenhuma eu falei isso. Só fiquei triste ao ver tudo aquilo acontecendo, mas acredito em você, e sei que foi ela que começou tudo isso.
- Sério que você está falando isso? – a sua voz já era alegre.
- É, é verdade. Mas agora eu preciso desligar. Depois converso com você. A gente se encontra. – não queria ser grossa. Só estava querendo saber o que ia acontecer comigo dali pra frente.
- NÃO! Espera Helena. Você não vai à escola amanhã?
- Não. Acho que não. Minha mãe já fez a minha matrícula na outra escola.
- Então tudo bem. Deixe só eu te falar mais uma coisa?
- Pode falar Eduardo.
- Eu te amo! – quando ele disse aquilo, meu coração começou a bater mais forte e o telefone ficou mudo ( nem eu e nem ele tínhamos palavras). Não sabia o que exatamente aquilo significava, só sei que estava muito feliz!
Como aquilo nunca tinha acontecido comigo antes, não sabia o que teria que fazer. Não sei se o certo era devolver a frase ou se era agradecer.
Eu sabia que se tentasse devolver a frase pra ele nada sairia da minha boca – como nos filmes -, pois eu não o amava de verdade, pelo menos sentia isso.
- E... – estava tentando falar alguma coisa, mas eu estava nervosa demais para que pudesse sair alguma voz da minha boca. – E... Eu também – disse depois de muita dificuldade – Mas agora eu tenho mesmo que desligar.
Desliguei o telefone antes mesmo que ele pudesse perceber algum tom deferente na minha voz. Desci as escadas, tinha que ir ao banheiro mais próximo, estava ficando enjoada. Saí correndo. Não sabia onde tinha um banheiro, e estava desesperada. Encontrei uma porta, parecia ser o escritório, tinha uma outra porta lá dentro, um lavabo, me ajoelhei na frente da privada e vomitei.
Aquele mal-estar que eu tive há algumas semanas estava voltando? Não seria possível. Agora eu queria ir ao médico, aquilo não poderia ter voltado. Fui até os fundos da casa, encontrei minha mãe limpando a piscina.
- Mãe? – ela olhou pra minha cara de quem acabou de passar mal assustada – Eu preciso ir ao médico. É urgente.
- O que aconteceu Helena? Você está pálida. – pálida? Não tinha como uma pessoa sem cor ficar pálida, tinha?
- Eu vomitei hoje, agora, de novo. Acho que o mal-estar está voltando.
- Vamos então. – disse ela largando a rede e pegando as chaves na mesa – Quer tomar um banho?
- Não. Vou escovar os dentes. Espere por mim no carro.
- Tudo bem, mas não demore. Temos muito que fazer hoje.
Fui até o meu banheiro – que não foi usado por muita dó – e peguei a escova. Mas antes que eu pudesse fazer qualquer movimento com a escova, outro enjôo me ocorreu. A privada fora usada dessa vez. E dessa vez, também, eu tinha ficado tonta.
Sentei-me no chão do banheiro esperando aquilo passar. E só naquele momento percebi que o meu ciclo estava atrasado. Mas eu não poderia estar grávida, apesar de todos os sintomas coincidirem, eu não me lembrava de ter tido nenhuma relação com ninguém. Nunca. Levantei correndo. A privada fora usada outra vez e dessa vez não fiquei tonta. Debrucei-me na pia cor de pérola, que agora tinha água escorrendo. Escovei os dentes e desci a escada.
- Mãe, não precisamos ir mais ao médico. O que eu tinha já passou. – menti – Fique despreocupada, não tenho mais nada. Acho que foi só tontura mesmo.
- Tudo bem. Se sentir mais alguma coisa me fale.
Sentei na minha cama, ainda confusa. Eu queria uma explicação para a minha suposta gravidez. Os únicos namorados que tive foram Danilo e Eduardo. E nada tinha acontecido com nenhum deles. Estava com muitas dúvidas. Como aquilo poderia estar acontecendo?
É claro!
Eu fiquei nervosa com Eduardo. Meu organismo reagiu de uma forma diferente, só isso. Poderia ter sido isso, só havia uma explicação para o que estava acontecendo. E a minha idéia de estar grávida... Que bobeira! Eu esperava ter essa surpresa, no mínimo, daqui a dez anos.
Deitei-me na cama e acabei dormindo.
Haviam crianças por todos os lados. Mas uma criança em especial mexeu comigo. Era uma menina. Ela tinha cabelos loiros – o mais claro que já tinha visto – e olhos pretos como uma jabuticaba.
- Qual o seu nome garotinha? – eu disse intrigada com a sua beleza.
- Ana. Meu nome é Ana. – disse ela pegando em minha mão. – Deixe-me te levar até um lugar.
Retribui o calor de suas mãos e segui cada passo que ela dava.
Chegamos até um ensolarado jardim com muitos coelhos e flores rosa.
A garotinha, Ana, que me acompanhara, havia desaparecido. E os coelhos se transformaram em pequenos roedores – ratos – que estavam vindo em minha direção. O jardim maravilhoso à minha frente tinha se transformado em um lugar quente e escuro. E em conseqüência disso, as lindas rosas tinham murchado.
Acordei assustada e já era a manhã do outro dia. Meu quarto que eu tinha deixado totalmente desarrumado, estava em perfeito estado. Só a cama que não estava arrumada, pois eu tinha dormido nela.
Lembrei-me que tinha aula na escola nova, hoje ainda. E que deveria estar atrasada. O céu estava claro, isso significava que já passara das 6h há pouco tempo.
Olhei no relógio, ainda tonta, 6h e 45 min. Eu ainda tinha tempo para me arrumar e tomar um café da manhã.
Abri a porta do meu quarto ( agora branca ) e segui o corredor. Desci as escadas na esperança de achar alguém acordado para me falar aonde era a escola.
Minha mãe estava na cozinha. Fazendo café. Isso significava que ela ia me levar até o colégio hoje e me deixar ir sozinha amanhã.
Então subi.
Fui me arrumar. Peguei a roupa mais simples e largada que eu tinha. Uma calça jeans, e uma blusa escrita; I LOVE NY que minha tia tinha trago pra mim ano passado, depois de viajar pra lá. Pra não ficar MUITO sem graça eu coloquei um colete preto por cima. Penteei o cabelo e amarrei pra trás. Passei o sagrado lápis preto no olho, por último peguei minha bolsa e desci.
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