terça-feira, 13 de julho de 2010

LIVRO - CADERNO DE BORBOLETAS

5. ESCOLA

A nova escola era bem grande. Na entrada tinha um corredor verde-escuro e uma porta mais lá na frente.

Um novo corredor, agora mais largo e com várias portas. Lá no fundo uma porta gigante, o que eu supunha que fosse a cantina. Do meu lado direito tinha um pequeno portão que tinha uma escada que descia. Ainda à minha direita tinha um pequeno corredor com uma placa escrito “ADMINISTRAÇÃO”, logo deduzi, então, que lá ficava a diretoria. Segui em frente e achei a sala. Bati na porta ninguém respondeu, então bati de novo. E novamente ninguém respondeu.

Estava desistindo de estudar hoje, quando um professor alto e bonito saiu daquela mesma sala. A diretora apareceu na porta sorrindo com o batom vermelho chocante todo borrado – ela devia ter um caso com o professor de educação física, isso era comum – fez um sinal pra eu entrar.

Sentei-me numa cadeira de madeira velha em uma sala toda escrita a lápis, como estava atrás podia ver tudo que estava escrito na sala toda. Depois de mim várias pessoas foram entrando na sala e se sentando também. O sinal tocou e o professor não tinha chegado. Daí, dois garotos – um era grande, branco e gordo e o outro tinha pele morena clara e era bem estilo “fortão” – levantaram-se e, com uma pedra que eles pegaram sei lá onde, quebraram o vidro da janela. Todos começaram a rir e a garota que estava sentando ao meu lado, disse pra outra na frente dela: “Nossa! Isso é o que eu chamo de machões”. Eu REALMENTE não entendi o que ela quis dizer com isso, por isso nem tentei prestar atenção no resto da conversa.

Aquela sala era uma bagunça, e o professor que tinha acabado de entrar na sala de aula estava esperando tal de Bruna e outra tal de Kelly se sentarem.

Ninguém tinha prestado atenção em mim, a não ser um garoto que sentava do outro lado da sala. Toda hora que eu olhava pra janela – o canto dele – ele estava olhando pra mim. Quando bateu o sinal, o professor de Geografia, o que estava na sala, saiu antes de terminar a matéria. Eu acho que era a única interessada em estudar naquele lugar.

Uma garota sentou na minha frente, o único lugar vago na sala de aula toda. Ela era deferente, talvez não houvesse outras iguais a ela. Tinha traços bonitos. Tinha cabelos lisos e ruivos até a cintura. Seu rosto tinha sardas clarinhas e seu olho era cinza. Ela se virou para falar com as meninas que estavam ao meu lado. Distraí-me por um momento olhando a beleza daquela garota.

A professora entrou – ela parecia ter mais respeito do que as outras -. E todos pararam de pular e dançar em cima das mesas. Começou a escrever a matéria no quadro, sem nem dar bom dia pra ninguém.

Estavam todos arrastando as mesas. Para formarem duplas e grupos. Era um trabalho de Matemática – que parecia estar obrigando todos a prestar atenção nas aulas.

Eu fiquei sozinha, não queria fazer trabalho com ninguém, pois tinha impressão que ia me destacar de um jeito que não destacava na outra escola.

Eu penso que devo ter cara de MUITO burra, para ficar nessa sala ( 1º D ). Ou devem ter me confundido seriamente com qualquer outra Helena Pierre – o que eu acho que é pouco provável.

As meninas na minha frente, inclusive aquela da beleza admirável, juntaram-se em grupos. E parecem que só assim me notaram, o que eu não fazia questão nenhuma que acontecesse.

- Ou, você, miúda? Vem sentar com a gente. – Miúda? Já me chamaram de Baixinha, Lena, Minhoca e ATÉ Lombriga, mas miúda?

Não respondi. Só assenti e coloquei a mesa ao lado de uma das meninas. O menino que não parava de olhar pra mim também se juntou ao grupo, e se sentou do meu lado.

Pra mim, todas aquelas meninas pareciam “fáceis” e eu acho que todos achavam que todas as que entravam também eram.

Eles começaram a conversar sobre cavalos e sítios. Eu estava prestando atenção na conversa e ao mesmo tempo, eu estava longe dali. Não me sentia confortável num grupo que já era formado, então tentei fazer a atividade, mas nenhuma das contas que eu fazia estava dando certo.

O nome de Eduardo não saia da minha cabeça. O que ele estaria fazendo agora? Será que mesmo eu mudando de escola as coisas iam continuar sendo como eram?

Senti um tremor no meu bolso esquerdo. Devia ser alguma mensagem da minha mãe avisando que ela desistiu de me deixar naquela escola, e que eu ia sair dali rapidinho. Mas não era. Era Isabella.

Oi meu bem. Como está a escola nova? Aposto que você está amando. Beijo! Estamos todos com muitas saudades sua.

É realmente eu estava amando aquela escola. Estava tudo tão bom.

As garotas pararam de conversar e olharam para mim. Eu devia estar fazendo alguma careta, porque todos começaram rir.

- Miúda? Aconteceu alguma coisa? Que cara é essa? – É eu sabia.

- Que cara? – perguntei sem entender muita coisa.

- Cara de desgosto. – disse o garoto.

- Ah! Eu só não queria estar aqui.

- Nenhum de nós queria. – completou a ruiva. – Deixa eu te apresentar as pessoas.

Esse é Caio. – ela olhou pra ele e piscou pra mim – Ela é Karen - disse ela apontando para uma garota, que tinha os cabelos cacheados e pretos, que estava ao seu lado – Essa ao seu lado é Fernanda. – a garota do meu lado era morena escura, tinha cabelos cacheados parecidos com aquelas mulheres de novela – E eu sou Paloma.

Por um momento eu quis colocar o nome da minha filha de Paloma, mas lembrei que não tinha filhos. Só dei um sorriso, e abaixei minha cabeça.

O horário logo passou e todos colocaram as mesas nos lugares e voltaram a fazer bagunça novamente.

Estavam todos saindo da sala, inclusive Karen e Fernanda. Caio, que agora estava ao meu lado – não sei por que – passou as mãos por trás da minha cadeira com a intenção de pegar em mim. Eu não sabia o que fazer, mas achei melhor fingir que não tinha visto nada e sair um pouco da cadeira.

- Podia me dar licença um pouquinho? – disse encarando educadamente seus olhos azuis e passando também pelos cabelos pretos e sua pele de anjo.

Eu não podia negar, Caio era bonito, muito bonito, mas assim como eu pensava que Eduardo estava sendo fiel a mim, seria fiel a ele também.

Senti que fiquei olhando um século para seu rosto sorridente. Achava até que ele já estava ficando sem graça ou tentando, até, se aproximar mais e mais, mas eu tinha que resistir ao irresistível.

Acabou que a outra professora entrou na sala e eu não saí. E eu só sabia disso pela minha visão periférica, pois hora nenhuma meus olhos saíram de foco ou desgrudaram do olhar imã de Caio.

Ah! Estaria eu hipnotizada por uma força maior? MAIOR...

Meu olhar só desencontrou com o dele quando ele tentou me beijar. Até mesmo se eu não tivesse Eduardo, eu não iria retribuí-lo. Nem o conhecia!

Ele tentou novamente quando olhei pra ele de novo, mas eu segurei seu rosto.

- Você está doido? – perguntei enquanto me virava novamente para o quadro.

- Não. – disse ele tirando minha mão da sua boca – Só pensei que você queria o mesmo que eu.

- Não! Eu não queria. Eu nem te conheço direito. – voltei a olhar pra ele distraidamente.

- Você não é como Karen, Fernanda, Kelly ou Bruna. Ou qualquer outra dessas meninas daqui não é?

- Não! Jamais fui. Nem nunca conversei com pessoas assim.

- Eu entrei aqui esse ano também. No primeiro dia de aula foi a Fernanda, na segunda semana a Bruna, no terceiro mês a Karen e semana passada a Kelly. Elas são fáceis. Já estava acostumado.

- Ahnm. E a Paloma? – pelas garotas que ela andava significava isso para mim.

- A Paloma? Paloma? Rá. Ela é a pessoa mais guardada da escola, mas parece que você bate o topo dela. Ela nunca ficou com ninguém daqui, pelo que me falaram. – ele ficou um pouco pensativo e depois virou novamente, tentando, de novo, me beijar. – É você não tem jeito mesmo né?

- Não. Eu tenho namorado. Você não vai conseguir ficar comigo tão rápido. Quem sabe quando eu me casar com Eduardo e quiser uma amante?

- Ah! Eduardo? Você vai se casar com ele? Rá, rá, rá. – ele riu – É seu príncipe?

- Não. Mas enquanto eu estiver com ele, você não tem chance.

- Mas isso não quer dizer que não podemos ser melhores amigos, né?

- Talvez. Amigos. – eu disse dando um sorriso e olhando pra frente novamente.

- Então tudo bem pra mim best!

O intervalo chegou. Eu queria ficar dentro da sala. Mas não me deixaram.

Tudo que eu queria naquele precioso momento era ligar para Eduardo. Nada mais.

Paloma me puxou para o portãozinho com a escada, e me levou lá pra baixo.

Tinha um corredor lá em baixo. Uma porta tinha os vestiários e outras duas portas ficavam a piscina e a quadra.

- Aqui tem aulas de natação? – eu disse confusa.

- Não. Essa piscina só fica aqui para os alunos que quiserem entrar, não tem utilidade. – quando percebi Caio estava atrás de nós.

- E a quadra? Só tem essa?

- Não. – respondeu Caio – Nos dias mais frios nós usamos uma que tem na saída da cantina. Fica a céu aberto.

Lembrei-me de perguntar sobre a diretora Carla e o professor Wilson (de educação física).

- A diretora, por acaso, tem um caso com o professor de educação física? – disse enquanto estava subindo a escada.

- Rá, rá, rá. – Eles riram juntos. – Tem, tem sim. Eles tentam até esconder, mas eu acho que não conseguem.

Daí nós rimos juntos. E o dia passou rápido. Eu acho que estava começando a gostar daquele lugar. Sei que não ia ser tão rápido, mas não custa tentar.

Cheguei a casa e senti o mesmo enjôo que tinha sentido há dias atrás. Minha mãe não estava em casa, e nem meu pai.

E pelas minhas deduções pouco prováveis, eu estaria grávida.

Saí de casa e fui até a farmácia mais próxima. Fiquei perdida no meio do caminho, mas deu tudo certo no final.

- O que você deseja senhorita? – disse uma mulher loira, vestida toda de branco, com um crachá da farmácia pregado do lado direito do jaleco.

- Eu queria um... Um... Te... Teste... – por algum motivo, eu não conseguia terminar a frase. Mas parece que Flávia ( como estava escrito no crachá) entendeu o que eu quis dizer e virou-se pra trás e pegou uma caixinha branca escrita “Teste de Gravidez”.

- Pode ir até o caixa que eu levo até lá pra você.

Assim fiz. Fui até o caixa, sempre de cabeça baixa. Estava com muita vergonha. Por via das dúvidas, corri até a atendente de novo.

- Moça? Flávia. – corrigi – Será que você podia me dar mais um de cada marca?

- É claro. – ela disse.

Fui até o caixa de novo. O homem do caixa me deu duas sacolas de testes, a mulher do meu lado olhou pra mim, e arregalou os olhos. Depois ela virou pra sua filha, e cochichou alguma coisa. Saí correndo pra casa de novo. Cheguei e fui até o banheiro do escritório.

Esperei os cinco minutos do primeiro teste. Peguei o objeto em forma de termômetro e me preparei para olhar o resultado.

“Positivo”.

O primeiro. Fiz o segundo, terceiro, quarto, quinto...

Dez!

Todos deram positivos.

Aquilo tinha que está errado. Já me falaram que esses testes não eram confiáveis.

E como eu estaria grávida? Não tinha como.

Ouvi a porta bater. Como iria esconder tudo aquilo?

Meu Deus! Era meu pai. E ele iria direto ao escritório.

Peguei o lixo e recolhi.

- Oi pai. Estou recolhendo o lixo do banheiro. Estava cheio.

- Mas, Helena, nunca usamos esse banheiro.

- Ah! Eu usei pai.

- Tem um dia que estamos aqui.

- Ah, deixa.

Saí rápido dali. E se ele quisesse ver o lixo? E se ele visse pela sacola transparente os testes?

Minha mãe também chegou. Ela olhou pra mim e pro lixo. Arregalou os olhos – parece que ela percebeu – e continuou andando.

- Helena? - ela disse quando eu estava voltando – Que tal a gente conversar? Lá no seu quarto.

- Tudo bem. – Tudo bem NADA. Ela tinha descoberto. E eu não tava acreditando nisso. Nossa! O que seria de mim agora? Como eu ia fazer pra falar o que realmente estava acontecendo comigo? – Mãe? – disse enquanto ela estava subindo a escada. – Será que a gente não pode conversar depois?

- Não. Tenho coisas pra fazer. Tem que ser agora.

Subi. Já que não tinha jeito. Sentamos na minha cama. Minha mãe colocou a mão no meu joelho e começou a chorar. Chorar, chorar e chorar. Eu estava desesperada, sem saber o que fazer.

- Lena, - ela disse enxugando as lágrimas – só me diz que o que eu vi não é verdade.

Minha consciência pesou. Eu fiquei com dó. Pelo menos era isso que eu achava que sentia.

- Verdade o que? – preferia me fazer de boba, ao falar a palavra GRAVIDEZ – o que aconteceu?

- Você minha filha, está grávida? – aquilo foi como uma bomba em cima de mim. Pra mim nem tinha caído à ficha ainda. Nem me dava conta que tinha alguém vivendo dentro de mim. Crescendo dentro de mim. De mim? Uma garota totalmente desajeitada, e que não tem nem tamanho pra ser MÃE. Mãe...

- Eu... Eu não... Eu não sei. Não tenho certeza. Eu nunca tive nada com nenhum menino. Mãe, eu juro! Não sei. Pode ser gripe isso.

- Ah! Gripe? Quem está gripada precisa de teste de gravidez? Helena, você não precisa mentir pra mim. Se você estiver mesmo “prenha” nós vamos ao médico. Nem eu, nem seu pai vamos te expulsar de casa por causa de uma criança. Isso aconteceu com minha irmã, a Cristina, você lembra? Ele teve a Alice com 17 anos. E ela foi posta pra fora?

- Não, não foi. Mas a vovó bateu nela. Tanto que ela quase abortou. Lembra? Mãe, eu realmente não sei. Podemos sim ir ao médico, mas eu juro que eu não sei como aconteceu. – eu não estava mentindo para mim, e nem para a minha mãe. Realmente eu não sabia como isso tinha acontecido. Não lembrava de nada.

Será que alguém me dopou? E eu não lembrei de nada...

É isso. A festa do Eduardo. Eu não lembrava de nada que tinha acontecido naquele dia. Eu tinha que ligar pra ele urgente.

- Mãe, liga pro médico, eu acho que eu já sei como isso aconteceu. Depois eu te falo.

Peguei meu celular em cima da escrivaninha. Será que era isso mesmo? Será que eu dormi com Eduardo e ele não me contou? Como assim? E a Isabella? Será que ela sabia disso e não me contou? Como eu pude não lembrar de uma coisa dessas? A culpa era do Eduardo? Perguntas e mais perguntas na minha cabeça.

Agora eu tinha que preocupar só com o que vinha pela frente. Somente isso. E se eu estivesse mesmo grávida? Como ia cuidar do meu filho? Eu não tenho condições de tratar de uma criança. E nem cabeça pra isso. E Eduardo? Não teve responsabilidade nem na hora de afastar uma menina de cima dele. Teria ele responsabilidade, o bastante, para cuidar de uma criança? Será que ele ia assumir?

Não sei. Fiquei tonta. Fui até o banheiro. Não era nada. Peguei o celular novamente.

“Eduardo” apertei o verde. Chamou, chamou, chamou...

- Alô? Helena? – disse ele. Sua voz parecia assustada. – Porque você está me ligando no horário do cursinho? – Ah! Hoje ele tinha cursinho. Segunda-feira, quinta-feira e sexta-feira.

- Eduardo, eu preciso falar sério com você. Aconteceu uma coisa...

- O quê? É grave?

- É, não, não sei. Eu... Eu estou grávida.

Ouvi em “glup” do outro lado da linha. Ele sabia.

O que eu mais temia. Ele sabia e não me contou nada. Não estava acreditando.

Desliguei o telefone. Encostei-me no armário do banheiro e comecei a chorar.

Como Eduardo poderia ter feito aquilo? Estava decepcionada. Então, provavelmente, Isabella deveria saber também.

COMO?

Estava MUITO decepcionada com todos. Todos mesmo. Eduardo me ligou novamente, eu desliguei. Fui até as configurações e apertei em “Reter todas as chamadas desse número”. Era o fim. Fiz a mesma coisa com o número de Isabella e de Fábio.

UMA SEMANA

DUAS SEMANAS

TRÊS SEMANAS

O dia do ginecologista tinha chegado. Pedi para Paloma ir comigo, já que agora era minha melhor amiga. Ainda não concordava em ter uma pessoa dentro de mim, e também não concordava com o fato disso ter acontecido comigo.

Minha mãe e meu pai – que ficou sabendo e fez uma cara de tacho – já tinham me falado que aquilo não era nada de mais. Era pra acontecer, uma hora ou outra, o problema é que tinha acontecido muito cedo. E disseram que eu teria que responsabilizar por aquilo pra sempre e que, por isso, eu teria conseqüências que eu não gostaria. Já que meu filho teria cinco anos apenas quando eu fosse para a faculdade.

Eu penso que isso pode ter acontecido para abrir meus olhos um pouco mais. Agora eu tinha uma vida dentro de mim, e eu teria que cuidar.

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